Será com profunda vergonha e culpa que me vacinarei contra Covid, se chegar viva até minha vez na fila. Pois esta vacina é o porco na ilha que assombra todo vegano.
Para quem não é vegano ainda, explico. Existe um problema hipotético com o qual todo vegano será confrontado pelo menos uma vez na vida. E toda pessoa que propõe esse problema ao vegano acredita piamente que foi a primeira a elaborar a grande charada que porá a nu a hipocrisia do veganismo: "Ah, e se você estiver sozinho, perdido numa ilha só com um porco? Você vai morrer de fome pra não matar o porco?"
É triste a sina do vegano e se puder evitar, jamais viaje com um deles. Ninguém sabe por que, mas veganos são altamente sujeitos a naufrágios, desastres aéreos ou a simplesmente derivar pelo mar numa bóia até uma ilha árida e desabitada. Eu disse "desabitada"? Mas não. Lá mora também um porco, coitadinho, que ninguém sabe de onde saiu.
Mesmo para quem é vegano, é pouca a probabilidade de nos encontrarmos qualquer dia na situação descrita - sozinhos e esfomeados numa ilha deserta na presença de um porco. Mas essa pouca probabilidade, evidentemente, não soluciona dilema. E se acontecer? O que faremos? Matar o porco? Morrer com o porco, eventualmente ser comido por ele? Ouso dizer que ninguém sabe o que fará. Pelo menos, nenhum vegano sabe de antemão o que fará. Não pode garantir o que vai prevalecer, quando a fome e o desespero apertarem.
E sabe por que não pode dizer o que fará? Por que esta seria uma situação limite, atípica, de exceção, fora de qualquer normalidade, na qual os padrões éticos são desafiados por urgências acachapantes.
E é por isso que é bobo propor a um vegano esse problema hipotético, crendo que assim desmonta a argumentação ética pelos direitos animais. Não vivemos todo o tempo em situações limite. Não vivemos todo tempo encontrando um porco numa ilha deserta, nem tendo que escolher entre nosso filho e uma galinha para salvar num incêndio.
Mas eis que do nada, fomos colocados diante de um verdadeiro dilema, todos nós ao mesmo tempo. Temos que escolher entre nossas vidas, e o repúdio à imoralidade dos testes em animais. Sim, nós veganos já tomávamos, quando imprescindíveis, com peso na consciência e no coração, nossos remedinhos testados em animais, e nos beneficiávamos de tratamentos experimentados antes em animais, e várias vantagens usufruíamos de produtos testados em animais para os quais não há alternativa, como lentes de contato, só para citar um.
Só que nunca antes houve um foco tão intenso e prolongado, tão massivo e desavergonhado, acontecendo bem diante do nosso nariz e não oculto pelo desinteresse em laboratórios desconhecidos, no desenvolvimento de um produto fortemente respaldado pelos testes em animais. E digo desavergonhado, porque não há um dia, nas notícias que dão conta de possíveis vacinas contra a Covid, que não se cite com toda a crueza a famigerada fase 2 dos testes pré-clínicos, os testes com animais. Se alguém ainda não sabia, não há mais como não saber, mesmo fazendo muita força. Não adianta procurar o selo de coelhinho "Cruelty Free" em sua vacina, amiguinha. A Fiocruz relata com orgulho que atualmente está testando a vacina nacional em camundongos, e breve passará a testar em primatas. Testes em animais, testes em animais, testes em animais, fala William Bonner, e não adianta tapar olhos e ouvidos. Minha vacina salvadora foi a sentença de tortura e morte de milhares de animais que não me deviam nada.
E com tudo isso, mesmo assim eu tomarei a vacina. Se me resta alguma dignidade, será nem tentar alegar inocência. O máximo que posso produzir em termos de justificativa é lembrar que o veganismo não é antivacina, é anti testes em animais. Justificativa que soa como um bebê balbuciando diante da óbvia constatação de que uma civilização erguida sobre a exploração do animais dispõe apenas de uma ciência especista a seu serviço. Não tem como saber em que estágio tecnológico estaríamos se não tivéssemos explorado animais desde sempre. Talvez até mais avançados? Talvez neste mesmo segundo em alguma realidade paralela floreça um mundo sem exploração animal e consequentemente sem Covid. Não tem como saber.
Philip Low, o mais notório neurocientista a assinar a Declaração de Cambridge sobre Consciência Animal em 2012, já dizia que "o mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade." Mas não há como reverter e desconstruir milênios de conhecimento produzido sobre o desrespeito aos outros seres sencientes em pouco tempo. Vai demorar muito, vai demorar um tempo maior que eu posso aguentar com fome abandonada numa ilha.
Por isso eu matei o porco da ilha. Matei e comi. E me envergonho disso.
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