segunda-feira, 26 de abril de 2021

O pior Narciso é o que não quer espelho

O jornalista Pedro Bial parece ter o mau hábito de negar aos outros o direito de elaborar percepções íntimas e opiniões pessoais. Recentemente, ele disse que Lula é mentiroso. Por quê? Para ele Lula é mentiroso porque o então presidente declarou que se sentiu agredido durante uma entrevista feita por Bial, anos atrás. Como Bial não se acha agressivo, embora a gente saiba que quem apanha lembra e quem bate esquece, ele diz que Lula está mentindo. O nome disso é gaslighting, quando se tenta convencer uma pessoa de que ela ñ sentiu o que sentiu.

Bial finge ignorar ou é tão, digamos, distraído, que de fato ignora que a agressividade pode ser expressa de mil formas não verbais, no tom de voz, na linguagem corporal, na escolha de palavras. Nas raras ocasiões em que assisti algum trecho do tal BBB, por exemplo, muitas vezes aconteceu de me sentir desconfortável com a truculência subjascente na forma como Bial se dirigia aos jogadores. Mas a arte de agredir pode ir além e ser até mesmo tão sofisticada que há até agressões que passam despercebidas mesmo na presença de um auditório, como quando o agressor utiliza alusões-gatilho a que só a vítima e ele tem acesso, como bem poderá comprovar qualquer vítima de narcisistas ocultos. Nada a ver, mas nunca esqueço também da entrevista de Bial com o historiador israelesende Yuval Noah Harari, e a forma como Bial bufava de impaciência toda vez que Harari se referia à injustiça da exploração animal, parecendo prestes a explodir.

Bial tb ñ permite que o cronista Maurício Stycer considere grosseiro o que ele disse sobre Lula (que só o entrevistaria acompanhado de um polígrafo). Tentando ensinar a Stycer o que Stycer deve achar, Bial decretou que "grosseiro" deveria ser substituído por "jocoso" ou "irreverente". Ora, "jocoso" é algo espirituoso, inspirado, e "irreverente" é algo corajoso e crítico. Talvez seja assim que Bial se vê, porém para Stycer Bial soou grosseiro mesmo, e foi isso que Stycer respondeu a ele, negando-se a ser reescrito na marra pelo apresentador do BBB.

Porém para Bial tudo é mimimi, como quando interditou o direito da cineasta Petra Costa a ter uma perspectiva e uma resposta emocional próprias com relação ao golpe de 2016, dizendo que ela era apenas uma menininha choramingona. Eu fico me perguntando de que infância, de que nicho, de que fábrica de machos alfa saem esse homens e mulheres brutamontes, que vão pela vida afora abrindo caminho a rasteiras e pontapés, e me dá até certa pena. Mulheres também, sim, pois à medida em que a sociedade privilegia esses valores de "competitividade" e "assertividade" identificados como viris, muitas mulheres também embarcam nessa postura repulsiva.

A impressão que dá é que Bial aferra-se em construir para si uma imagem de cidadão do mundo, de cara descolado, de intelectual esclarecido e diplomático capaz de trafegar com elegância por todas esferas de poder e ideologias, e fica furioso quando o espelho lhe contraria, investindo contra o próprio reflexo. Tanto no episódio de Petra Costa como de Lula, não houve retratação em suas retratações. Apenas, de novo, o desejo de empurrar goela abaixo das pessoas sua visão retocada de si próprio.

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